O socorro (Millor Fernandes)
Ele foi cavando, cavando, cavando, pois sua profissão - coveiro - era cavar. Mas, de repente, na distração do ofício que amava, percebeu que cavara demais. Tentou sair da cova, e não conseguiu sair. Gritou. Ninguém atendeu. Gritou mais forte. Ninguém veio. Enlouqueceu de gritar, cansou de esbravejar, desistiu com a noite. Sentou-se no fundo da cova, desesperado. A noite chegou, subiu, fez-se o silêncio das horas tardias. Bateu o frio da madrugada, e, na noite escura, não se ouvia um som humano, embora o cemitério estivesse cheio de pipilos e coaxares naturais dos matos. Só um pouco depois da meia-noite é que lá vieram uns passos. Deitado no fundo da cova o coveiro, gritou. Os passos se aproximaram. Uma cabeça ébria, lá em cima, perguntou o que havia:
– O que é que há?
O coveiro então gritou desesperado:
– “Tire-me daqui, por favor. Estou com um frio terrível!”
– “Mas coitado!” - condoeu-se o bêbado. “Tem toda razão
de estar com frio. Alguém tirou a terra de você, meu pobre mortinho!” E, pegando a pá, encheu-a de terra e pôs-se a cobri-lo cuidadosamente.
Moral da história: Nos momentos graves, é preciso verificar muito bem para quem se apela.
Fonte: FERNANDES, Millôr. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1991. (Com adaptações).
No trecho “Mas coitado!” - condoeu-se o bêbado”, o bêbado estava se referindo